TV Globo – Programa Globo Comunidade

“Cada um tem uma causa dentro de si”, afirma diretora do RioSolidario/ Liliana Pinelli e diretora da ONG Teto falaram sobre a importância da solidariedade – No Domingo de Páscoa, o tema do Globo Comunidade foi solidariedade. O programa exibiu relatos sobre projetos de instituições e também iniciativas pessoais. No estúdio, o jornalista Edmilson Ávila entrevistou a diretora do RioSolidario, Liliana Pinelli, e a diretora da ONG Teto, Danyelle Fioravanti, sobre o assunto. Segue a íntegra:

>> Edmilson Ávila: Para falar sobre solidariedade, recebemos hoje no estúdio a Danyelle Fioravanti, diretora da ONG Teto no Rio, e a Liliana Pinelli, diretora do RioSolidario. Bom dia e obrigado pela presença. Temos visto – principalmente aqui no Rio de Janeiro – que sempre aparece aquela mão solidária quando as pessoas perdem tudo o que têm nas chuvas. Esse é um momento em que brota em nós essa vontade de ajudar?

Liliana Pinelli: No RioSolidario, percebemos que sempre que há uma campanha ou uma tragédia, como você colocou, as pessoas são motivadas por causas. Uma causa muito forte acaba mostrando esse lado solidário que está escondido. Ele existe, o brasileiro é solidário por natureza, vemos isso no dia a dia, mas o dia a dia também nos consome muito. Acabamos muito preocupados com a nossa rotina e quando acontece uma campanha dessas às vezes é a oportunidade que a pessoa tem de despertar a sua solidariedade, tanto é que quando acontece uma campanha dessas vemos que não há perfil. Não há um idade ou um gênero, todo mundo se prontifica a ajudar. Acho que às vezes é o motivador das pessoas.

>> Edmilson Ávila: Na verdade, somos solidários, mas estamos tão envolvidos com o dia a dia e os afazeres, mas quando aquele momento mais sério é que paramos para pensar. É isso?

Liliana Pinelli: Isso, e acho que cada um também tem uma causa dentro de si. Às vezes pode ser uma tragédia ou uma criança que está passando por uma situação ou um idoso. Somos muito motivados pela experiência pessoal. Quando ele vê uma causa com criança, se solidariza porque pensa que tem uma história no passado com criança e quer ajudar. Eu acho que esse motivador é que leva a pessoa a ajudar no dia a dia e aí ela muda. Depois que muda, isso é transformador na vida dela.

>> Edmilson Ávila: Danyenlle, a moradia é uma causa que está sempre muito presente. É isso que te levou para o Teto?

Danyelle Fioravanti: Acho que foi perceber que, a partir da moradia, podíamos fazer muito mais. A moradia podia ser um ponto de partida para muitas famílias que hoje não têm nenhum direito básico garantido.

>> Edmilson Ávila: Explica para nós como funciona o Teto.

Danyelle Fioravanti: O Teto é uma organização que trabalha com desenvolvimento comunitário. A nossa ideia é identificar os principais problemas das comunidades mais precárias. O Teto busca aquela comunidade que está em situação mais precária, de maior urgência, com pessoas sem direitos – como água, luz, saneamento, educação e moradia – garantidos e, a partir dessa identificação, buscamos soluções junto com a comunidade. Uma das principais é o programa de moradia de emergência. Como eu falei, é um primeiro passo. Como vamos pensar em saúde e educação…

>> Edmilson Ávila: Se não tem nem onde morar?

Danyelle Fioravanti: Exato. Eram causas que antes me motivavam muito e eu percebi que havia um primeiro passo a ser dado.

>> Edmilson Ávila: As pessoas são voluntárias e ajudam a fazer as moradias.

Danyelle Fioravanti: São voluntários de dentro e de fora da comunidade que, juntos, trabalham nessa atividade do Teto que é a moradia de emergência. Esse trabalho é de encontro. Mobilizamos muitos jovens universitários, mas também estamos abertos a pessoas de todos os perfis e sempre incentivando a participação da própria comunidade como protagonistas dessa mudança.

>> Edmilson Ávila: Liliana, muita gente quer ajudar, mas fica preocupado sobre como ajudar. Às vezes não sabe quem ajudar, como procurar e fica preocupado de ajudar e depois não cuidarem. Como ajudar de forma correta? Como estender a mão exatamente para quem precisa?

Liliana Pinelli: Temos várias formas de fazer isso. Às vezes a própria comunidade onde você está tem uma instituição que faz atendimento. Você pode ir lá conhecer essa instituição, ver o trabalho que ela faz e se propor a estar lá. No RioSolidario, temos mais de 1 mil instituições cadastradas no estado. Vamos lá e conhecemos o trabalho da instituição, vemos de que forma ela atende a comunidade e disponibilizamos no nosso site para fazer a ponte entre a pessoa que está no interior e quer ajudar com uma causa no seu município. E essa é uma instituição que está precisando. Tentamos juntar essas pontas e às vezes é uma coisa do tipo “Quero tirar um sábado para ler para crianças” Para a instituição, faz muita diferença. Uma coisa que às vezes acontece na solidariedade é que as pessoas acham que é muito pouco. “Só posso ir lá no sábado ler.” Para aquela instituição, é transformador. Pergunta “você está sendo solidário?” e a pessoa diz que não, ela não acredita naquilo com um ato de solidariedade.

>> Edmilson Ávila: Confundem muito voluntariado com solidariedade? O voluntariado me remete a algo em que há uma obrigação. Solidariedade não, é possível ser solidário em algum momento. Vocês fazem essa distinção também? Todo mundo pode ajudar em algum momento, mas às vezes não pode todos os dias? Ou os dois estão muito ligados?

Danyelle Fioravanti: Para mim, no Teto, isso está muito ligado porque a partir do voluntariado despertamos essa solidariedade dentro de nós. Acho que o voluntariado é uma das formas de ser solidário, o mais importante é a empatia de enxergar o outro e se enxergar como igual. Um ponto importante da solidariedade é não se enxergar superior e o outro uma vítima.

>> Edmilson Ávila: Em outras instituições eu posso ajudar eventualmente.

Liliana Pinelli: Às vezes um ato de solidariedade vai transformar a pessoa em um voluntário frequente. É possível ser voluntário de diversas formas. Há pessoas que tiram um dia no ano para fazer uma ação voluntária. Empresas fazem isso, ajudando os funcionários a fazer um dia de solidariedade, exatamente para estimular neles essa vontade de continuar ajudando.

>> Edmilson Ávila: Sempre pensamos na solidariedade como ter que dar alguma coisa, mas se pensarmos até um bom dia, um boa tarde e uma boa ação, como ajudar uma pessoa a atravessar a rua, faz parte.

Liliana Pinelli: Sem dúvida. Acho que o grande problema da nossa sociedade hoje é a invisibilidade do ser humano. Se não rompermos essa fronteira do dia a dia e da rotina que criamos, não conseguimos dar o bom dia e o boa tarde bem dados. A pessoa pega trânsito e já chega no trabalho cansada. Se você dá um bom dia e pergunta como está a família dela, às vezes muda o dia dela com um ato simples. No RioSolidario brincamos o tempo todo: se coloque no lugar do outro. O que você gostaria que fizessem por você? Isso já é solidariedade. Como você gostaria de ser tratado? O exemplo da criança pensando desde pequena nisso é maravilhoso. Ela cresce com esses valores e vai levar para o resto da vida.

>> Edmilson Ávila: Há como ser solidário sozinho ou em grupo. Como vocês trabalham isso?

Danyelle Fioravanti: No Teto, trabalhamos de forma coletiva e aberta a todas as pessoas que querem se envolver. Agora temos 40 voluntários corporativos de uma empresa que, além de apoiar o nosso trabalho financeiramente, está envolvendo seus colaboradores. Então, vemos de uma forma muito coletiva, mas acho que também existe um caráter individual da solidariedade.

>> Edmilson Ávila: E todo mundo ali tem a mesma função? Em uma empresa há o chefe e o funcionário, mas lá eles têm o mesmo peso e são voluntários.

Danyelle Fioravanti: Ali não importa a hierarquia ou quem fez uma faculdade ou não. O importante é cavarmos o buraco juntos, fazer a casa subir juntos. E é a mesma relação com o morador, enxergamos de igual para igual.

>> Edmilson Ávila: E qualquer pessoa pode participar do Teto?

Danyelle Fioravantini: Sim. As construções estão abertas a todos e não é preciso um conhecimento prévio. As outras atividades também. Temos equipes que todo final de semana trabalham em comunidades com outros temas e projetos. Estamos abertos a receber voluntários e pessoas solidárias para essas atividades.

>> Edmilson Ávila: Liliana, é importante também olharmos para o nosso entorno e vermos quem está precisando?

Liliana Pinelli: É, sempre comentamos isso. Se ajudarmos quem está ao nosso redor, vamos criando um ciclo virtuoso e isso vai entrando em uma corrente. Se ajudamos quem está no nosso dia a dia e precisando de ajuda… Às vezes é a pessoa que trabalha na nossa casa ou o porteiro do nosso prédio. Entramos e saímos, não perguntamos se o filho está precisando de um remédio ou se está na escola. Se começamos a fazer pela nossa comunidade já estamos transformando a nossa realidade e daqueles que estão em volta. Acho que isso funciona tanto na nossa casa quanto no nosso trabalho e nas comunidades que atendemos. Quando vamos às comunidades e mostramos que, juntos, eles podem ter a força de transformar o espaço deles se ajudando, isso também transforma, no coletivo, o espaço em que vivem.

>> Edmilson Ávila: Você também sente muito isso?

Danyelle Fioravanti: Sim, é uma coisa sobre a qual refletimos. Solidariedade é um valor do Teto. Há como ser voluntário sem ser solidário. Solidariedade é pensar na troca com o outro independente do espaço onde se está. Não adianta fazermos uma construção e em casa termos um tratamento diferente com as pessoas ao nosso redor.

>> Edmilson Ávila: Existem muitas formas de ajudar e de estender a mão.

Liliana Pinelli: Sim, às vezes a pessoa não percebe que pode ser solidária até com a profissão que exerce. Tentamos ajudar instituições que atendem diversas pessoas no interior do estado e não são profissionais no que fazem. Às vezes um engenheiro ou um gestor de empresa vai esclarecer dúvidas para eles já é transformador. Ensinar a pessoa como ela tem que profissionalizar sua gestão já é transformador para a instituição. Há várias formas e ser solidário é uma ação do dia a dia, um valor que tem que ser levado para o dia a dia.

>> Edmilson Ávila: No Teto também há várias formas de ajudar?

Liliana Pinelli: Sim, há voluntários que trabalham com a captação de recursos para que os projetos aconteçam, voluntários que pensam em projetos de captação de água da chuva e outros que ensinam os moradores a fazer compostagem. Todas as habilidades são bem-vindas e vamos articulando junto com os moradores para colocá-las em ação.

>> Edmilson Ávila: E as empresas que querem ajudar? Elas também podem ser solidárias nesse momento, com dinheiro ou com seus funcionários?

Liliana Pinelli: Vemos um crescimento no Brasil de empresas que estão interessadas em criar programas de voluntariado e de solidariedade. Cada um traz um nome ou o formato que deseja. Vai desde a doação de recursos até a empresa levar os funcionários e descobrir talentos dentro da própria empresa. A pessoa acaba se disponibilizando a fazer outras coisas. Há pessoas que vão fazer um dia com as crianças e descobrem que fazem mágica e as crianças gostam, aí passam a fazer isso em diversas creches perto de casa. Há também gente que reforma a estrutura de uma instituição inteira e aquela instituição faz um trabalho maravilhoso, mas ela não tem condição financeira de reformar aquele espaço.

Danyelle Fioravanti: E há também um retorno para a própria empresa. Temos voluntários que foram construir e depois se tornaram voluntários fixos de uma área. Hoje, dentro de uma empresa estão desenvolvendo outras atividades pelo que aprenderam no Teto, aperfeiçoando o lado social da empresa.

>> Edmilson Ávila: Para concluirmos, a sua principal dica para quem está em casa nos vendo e quer estender a mão. Qual a sua principal dica para começar solidariedade?

Danyelle Fioravanti: Acho que é encontrar a sua causa, como a Lili falou, e buscar as organizações que estão trabalhando com ela para que você consiga se envolver em um coletivo solidário que vai te ajudar a praticar.

Liliana Pinelli: Eu concordo. Tem que encontrar o que te impulsiona e levar isso para o dia a dia. Acho que é muito importante trazermos as crianças para esse contexto e esses valores, para que elas cresçam com isso. A partir do momento em que isso faz parte da sua rotina você não pensa mais em solidariedade, você já é solidariedade.

>> Edmilson Ávila: E teremos um futuro melhor. Obrigado pela presença, o Globo Comunidade fica por aqui.

Confira a íntegra aqui: http://globoplay.globo.com/v/4913786/

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