Ana Lúcia (à esquerda) acompanhou oficinas no Rio Artes Manuais (Crédito: André Gomes de Melo)

Ana Lúcia (à esquerda) acompanhou oficinas no Rio Artes Manuais (Crédito: André Gomes de Melo)

Por Flávio Amaral

Sorriso no rosto, vestindo camisa do RioSolidario, uma pequena cadeira dobrável debaixo do braço – até porque, para passar manhã e tarde visitando os estandes e acompanhando as oficinas do primeiro dia do Rio Artes Manuais, na última quarta-feira (20), foi preciso resistência. Mas isso não faltou para Ana Lúcia Gomes: “saí de lá nos últimos minutos. Amanhã vou de novo e ficarei até o final!”

Ela acompanhou suas colegas do curso de bordado do projeto Comunidade em Ação na 13ª edição do evento voltado para a difusão das mais variadas técnicas manuais, que movimentou o Rio de Janeiro na última semana. Há três anos na turma, ela conta que vê na atividade uma terapia. Mas as curvas no caminho de Ana até chegar ao bordado não foram suaves como aquelas que percorre com a agulha na mão.

Atenção total durante a oficina de Amigurumi (Crédito: André Gomes de Melo)

Atenção total durante a oficina de Amigurumi (Crédito: André Gomes de Melo)

“Descobri um câncer de mama em 2014. Fiz cirurgia, quimioterapia e radioterapia e, com isso, ficava apenas dentro de casa. Fui encaminhada para psicólogo e psiquiatra, que me orientaram a fazer alguma atividade para manter a mente ativa”, relembra Ana, cuja rotina começava nas primeiras horas da manhã e terminava no fim do dia, fazendo com que ela só pegasse em agulhas para consertar roupas, quando necessário.

A cura nas mãos

Durante o tratamento, seu marido foi a um estabelecimento próximo à residência do casal perguntando sobre atividades ligadas a artesanato. Quis o destino que fosse esse o local onde as alunas do curso de bordado do projeto Comunidade em Ação, do RioSolidario, costumam comprar seus materiais. Enquanto se informava sobre o curso, ele não imaginava que seria o intermediário de parte da cura da esposa.

“Essa atividade fez muito bem à minha mente, me faz aprender muito. Me senti muito acolhida, a equipe me abraçou desde o momento em que cheguei”, conta Ana. Tamanho o bem que a atividade lhe fazia, ela, então na turma da tarde, descobriu que também poderia ir pela manhã, passando a praticar nos dois horários. “O curso foi a minha válvula de escape. Era o lugar onde eu me sentia bem, me sentia feliz. Vejo como uma terapia para todas nós”, afirma, referindo-se também às colegas.

(Crédito: André Gomes de Melo)

Colegas de Ana Lúcia do Comunidade em Ação participaram de oficinas durante o Rio Artes Manuais (Crédito: André Gomes de Melo)

Hoje Ana também frequenta outros espaços próximos de sua casa onde pode ter mais contato com artesanato, dedicando três dias de sua semana a essa atividade. Mesmo quando está fora do Rio de Janeiro, ela conta que leva os materiais para não deixar de lado.

Ao falar sobre o resultado de seu trabalho nas aulas, ela recorda os momentos de confraternização. “Não faço nada para vender. O trabalho que faço é para presentear familiares e amigos que fazem aniversário, sempre dou algo de lembrança”. A pintura no prato, a carteirinha para documentos feita de tecido e caixas de leite e a pintura no tecido, as mais novas criações de Ana Lúcia, feitas durante as oficinas do Rio Artes Manuais, podem também fazer a alegria de seus parentes e amigos.