Em entrevista, a primeira repórter com Síndrome de Down do Brasil conta sobre sua carreira e seus sonhos

Fernanda Honorato

A Síndrome de Down não limita os sonhos da atleta e repórter Fernanda Honorato. Ela, que já entrevistou nomes como Marília Gabriela e Chico Buarque e apresenta o Programa Especial da TV Brasil, contou em entrevista ao RioSolidario que planeja agora alavancar sua carreira de atriz. Vaidosa e sempre com um sorriso no rosto, Fernanda ressaltou que ainda tem tempo para ensaiar com a primeira escola de samba inclusiva, a “Embaixadores da Alegria”, da qual é rainha de bateria, e participar de eventos relacionados à pessoa com deficiência.

Como você chegou ao jornalismo?

Fernanda Honorato: Eu nasci para o jornalismo, gosto de ler e ver jornal, de saber o que acontece pelo mundo afora. Eu já nasci com esse dom. Quando era pequena, entrevistava a minha família e imitava a Marília Gabriela. Ela é minha musa inspiradora. Tive a oportunidade de entrevistá-la para o meu programa da TV Brasil. Há uns anos, descobri o Programa Especial da TV Brasil. Eles fizeram uma entrevista comigo e gostaram tanto de mim, que me pediram para fazer um teste. Fiz, passei e trabalho na TV Brasil desde 2006. Sou a primeira repórter com Síndrome de Down do Brasil e do mundo. Adoro ser reconhecida. Eu me sinto muito feliz e muito realizada quando as pessoas vêm falar comigo.

Como é o seu programa na TV Brasil?

Fernanda Honorato: O programa é voltado para temas relacionados à pessoa com deficiência. No quadro “Tietando”, entrevisto vários artistas. O programa vai ao ar nos sábados, às 10h30, com reprise nos domingos, às 6h30. É o único programa com autodescrição em linguagem de sinais. Sou muito feliz, porque tenho meu trabalho e meu espaço. Devo muito Ângela Patrícia, que é minha produtora. Trabalho em uma produtora independente, que presta serviço para a TV Brasil. Gosto de falar que participo de todo o processo, desde a reunião de pauta à edição dos meus programas.

Você também é atleta? Em que modalidade compete?

Fernanda Honorato: Eu faço natação. Sou atleta da Sociedade Síndrome de Down do Rio. A gente viaja para várias capitais do Brasil competindo. Além de atleta e jornalista, eu também sou atriz. Não consigo ficar parada, estou também em todos os eventos relacionados à pessoa com deficiência intelectual. Eu gosto de trazer informações sobre os direitos da pessoa com deficiência, do mercado de trabalho, oportunidades.

Você vai participar das Paralimpíadas do Rio, no ano que vem?

Fernanda Honorato: Ganhei bolsa atleta por cinco anos. Chegando o verão, vou ter que começar a treinar. Vou às Olimpíadas e às Paralimpíadas como repórter, mas também quero ir como voluntária. Fui voluntária no Parapan do Rio, em 2007.

Então, como anda sua carreira de atriz?

Fernanda Honorato: Eu já fiz dois filmes. O “Cromossomo 21”, do diretor Alex Duarte, do Rio Grande do Sul. O filme conta uma história de um casal com Síndrome de Down. Participo do filme como eu mesma, no papel de repórter. O outro filme é o “Entre Amores”, em que sou protagonista. No filme, meu marido e eu adotamos uma criança de rua.

Você falou que vai a eventos relacionados à pessoa com deficiência. Como é a sua participação?

Fernanda Honorato: Também sou palestrante e vou a outros encontros. Os eventos como o do RioSolidario nos ajudam muito. Nós só precisamos romper barreiras. A gente só quer o nosso espaço dentro da sociedade e ter reconhecimento.

Ainda há muito preconceito?

Fernanda Honorato: Há muito preconceito, sim. Não vou mentir. Principalmente, com quem tem Síndrome de Down. Não estou deixando de lado as outras deficiências, mas quero um olhar mais atento para a Síndrome de Down.

Então, você tem uma vida muito agitada. Qual o segredo para dar conta disso tudo?

Fernanda Honorato: Sou muito vaidosa. Tenho uma alimentação balanceada e não tomo refrigerante dia de semana. Também adoro dançar, sou dançarina de dança cigana. Ainda faço aulas de teatro, de dança de salão e canto. O segredo é manter a boa forma. Faço academia todo o dia à noite. Faço muay thai também.

O samba é outra paixão?

Fernanda Honorato: Sou rainha de bateria dos Embaixadores da Alegria, primeira escola inclusiva do Brasil. Ela abre o Desfile das Campeãs do Grupo Especial, no sábado. Um problema é que perdemos o patrocínio da Eletrobras Furnas. Ainda sou musa da Portela. O samba está na minha veia.

Você também já ganhou muitos prêmios?

Fernanda Honorato: As pessoas olham para mim com ar de felicidade. Elas me pedem para tirar fotos, dar autógrafos. E eu vou numa boa. Adoro ser reconhecida. No dia 15 de setembro, recebi o Prêmio Rio Sem Preconceito. Fiquei muito feliz, porque, dos 26 jornalistas que participaram da escolha, 20 votaram em mim. Já ganhei alguns outros prêmios, entre eles a Medalha Pedro Ernesto.

Qual o recado que você deixa às pessoas com deficiência?

Fernanda Honorato: As pessoas com deficiência têm que correr atrás de seus objetivos e da felicidade. Temos que correr atrás dos nossos sonhos, porque somos capazes.

Texto: Gabriela Murno

Fotos: Bruno Itan